Refluxo e Azia: Porque os Antiácidos Não São a Resposta e O Que Fazer em Vez Disso
Se vive à base de antiácidos (alívio durante uma hora e depois o ardor volta), não é caso único, e não está a fazer nada de errado. O problema é que a explicação habitual do refluxo é muitas vezes incompleta e deixa muitas pessoas presas num ciclo que nunca chega bem a acabar.
Vamos ver o que se passa realmente.
A ideia que prende as pessoas
A azia parece excesso de ácido, por isso a solução lógica parece ser reduzir o ácido. Os antiácidos e os medicamentos que suprimem o ácido (os IBP, inibidores da bomba de protões) fazem exatamente isso e podem trazer um alívio real, sobretudo a curto prazo. Mas, para muitas pessoas, o problema de fundo não é ácido a mais: pode ser ácido a menos, ou simplesmente ácido no sítio errado.
Como acontece realmente o refluxo
No topo do estômago existe uma válvula, o esfíncter esofágico inferior, que deve manter-se fechada para que o ácido fique onde deve estar. O refluxo acontece quando essa válvula abre na altura errada e o ácido sobe. A ideia-chave: o problema está muitas vezes na válvula e na pressão por trás dela, e não na quantidade de ácido. Quando a comida fica demasiado tempo no estômago e fermenta, algo que o ácido gástrico baixo favorece, a pressão aumenta e empurra essa válvula. Essa mesma pressão é uma das razões pelas quais o refluxo anda tantas vezes a par do inchaço; se isto lhe parece familiar, leia mais sobre sintomas digestivos e SIBO.
Porque é que os antiácidos podem ter o efeito contrário a longo prazo
Suprimir o ácido alivia o ardor, mas não resolve a razão pela qual o ácido estava a escapar. E o ácido do estômago tem funções essenciais: digerir a proteína, ajudar a absorver nutrientes como a vitamina B12, o ferro e o cálcio, e funcionar como barreira contra bactérias indesejadas. Se o suprimir a longo prazo, pode afetar as três.
Há também um efeito bem documentado. Quando as pessoas deixam de tomar medicação que suprime o ácido, o estômago pode produzir temporariamente mais ácido do que antes, um fenómeno chamado hipersecreção ácida de rebound. Num ensaio aleatorizado e controlado com placebo, 40 a 50% dos voluntários saudáveis que tinham tomado um IBP desenvolveram sintomas relacionados com o ácido depois de pararem, sem nunca os terem tido antes [1]. Isto pode dar a sensação de que "precisa" da medicação, quando em parte é a própria suspensão a falar. (Nada disto significa parar a medicação por conta própria: faça-o sempre com o seu médico.)
O que costuma estar por trás do refluxo
Para além da própria válvula, entre os fatores mais comuns estão o ácido gástrico baixo, uma digestão e motilidade lentas, uma componente bacteriana como a H. pylori ou um sobrecrescimento, comer depressa ou tarde e o stress. Sobrepõem-se muito com as causas do inchaço, de que falo no artigo porque fica sempre com a barriga inchada depois de comer.
Uma forma diferente de abordar o refluxo
Em vez de apenas suprimir o sintoma, uma abordagem focada na causa pergunta porque é que o refluxo está a acontecer no seu caso: como e quando come, o que se passa com a sua digestão e o seu stress, e se existe uma componente bacteriana, sempre em conjunto com o seu médico e nunca em vez dele. O objetivo não é aguentar sem alívio; é precisar menos do alívio porque a causa está a ser trabalhada.
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Perguntas frequentes
O ácido gástrico baixo pode causar azia?
Sim. Por estranho que pareça, ácido a menos no estômago pode contribuir para o refluxo, ao tornar a digestão mais lenta e aumentar a fermentação e a pressão no estômago. É por isso que as abordagens que suprimem o ácido não ajudam toda a gente.
Porque é que o refluxo volta quando deixo os antiácidos?
Parar a medicação que suprime o ácido pode provocar um aumento temporário da produção de ácido (hipersecreção ácida de rebound), que imita os sintomas iniciais. Faça sempre a redução com o acompanhamento do seu médico.
Os antiácidos fazem-me mal?
Têm o seu lugar e podem trazer um alívio real, mas a supressão do ácido a longo prazo pode afetar a digestão, a absorção de nutrientes e o equilíbrio bacteriano do intestino. O objetivo é perceber porque é que o refluxo acontece, e não suprimi-lo indefinidamente.
Posso trabalhar consigo online se não estiver em Lisboa?
Sim. Acompanho pessoas online em português, inglês, espanhol e francês, e também presencialmente em Lisboa e no Estoril.
Referências
- Reimer C, et al. Proton-pump inhibitor therapy induces acid-related symptoms in healthy volunteers after withdrawal of therapy. Gastroenterology, 2009. gastrojournal.org/article/S0016-5085(09)00522-8/fulltext
Este artigo tem fins educativos e não constitui aconselhamento médico. Fale sempre com o seu médico para obter um diagnóstico e antes de alterar os seus cuidados.