Resposta rápida: Gastrite é a inflamação da mucosa do estômago. Em rigor, confirma-se ao observar a mucosa numa endoscopia, muitas vezes com uma pequena biópsia, mas a palavra também se usa de forma mais solta para um estômago que arde ou anda desconfortável. As causas mais comuns são a infeção por Helicobacter pylori, os anti-inflamatórios como o ibuprofeno ou a aspirina, o álcool e, menos vezes, um processo autoimune. Não existe uma “dieta para a gastrite” com evidência forte, mas refeições mais pequenas e regulares, conhecer os seus gatilhos e limitar o álcool podem tornar o estômago mais confortável. Encontrar e trabalhar a causa, com o seu médico, conta mais do que qualquer lista de alimentos.
“Gastrite” é das palavras que mais ouço nas primeiras sessões. Às vezes vem de um relatório de endoscopia; outras vezes é um rótulo dado a quem descreveu um estômago a arder. Ambas as situações merecem atenção, mas nem sempre são a mesma coisa. Se o principal sintoma é um ardor que sobe para o peito, pode ser útil ler refluxo e azia, e se teve um teste positivo para H. pylori, leia Helicobacter pylori positivo: o que significa.
O que é exatamente a gastrite?
A gastrite é a inflamação da mucosa do estômago. Pode ser aguda, surgindo de repente depois de um gatilho, como uma noite com muito álcool ou uns dias de anti-inflamatórios, ou crónica, instalando-se devagar ao longo de meses ou anos. A gastrite crónica muitas vezes não dá sintomas e só é encontrada numa endoscopia feita por outro motivo.
Muitas pessoas a quem disseram que têm “gastrite” nunca fizeram uma endoscopia. Os sintomas, como ardor na parte alta da barriga, sensação de enfartamento depois de refeições pequenas ou náuseas, podem corresponder ao que os médicos chamam dispepsia funcional: sintomas reais e incómodos, mas sem inflamação visível.6 A diferença importa, porque a abordagem pode mudar.
O que causa a gastrite?
- Helicobacter pylori. Esta bactéria é a causa mais comum de gastrite crónica no mundo. O consenso internacional considera hoje a gastrite por H. pylori uma infeção que deve ser abordada quando é encontrada, com o seu médico.1,2
- Anti-inflamatórios e aspirina. O uso regular de ibuprofeno, naproxeno, diclofenac ou aspirina pode irritar e lesar a mucosa do estômago, sobretudo em pessoas mais velhas ou em conjunto com corticoides ou anticoagulantes.4
- Álcool e tabaco. Ambos podem irritar a mucosa e atrasar a sua reparação.
- Refluxo biliar. A bílis que volta para o estômago, por exemplo depois de alguns tipos de cirurgia, pode inflamar a mucosa.
- Gastrite autoimune. Aqui o sistema imunitário ataca as células que produzem ácido. Está ligada a vitamina B12 e ferro baixos, e é mais frequente em quem tem doença autoimune da tiroide ou diabetes tipo 1.5
- Stress físico intenso. Doença grave, cirurgias de grande porte ou queimaduras podem provocar alterações da mucosa.
Quais são os sintomas da gastrite?
Quando a gastrite dá sintomas, as pessoas descrevem muitas vezes:
- ardor ou dor tipo “roer” na parte alta e central da barriga
- ficar cheio depressa ou demasiado cheio depois de comer (veja porque fico saciado tão depressa)
- náuseas, por vezes de manhã
- inchaço e arrotos na parte alta da barriga
- menos apetite
Estes sintomas sobrepõem-se aos do refluxo, das úlceras, de problemas da vesícula e da dispepsia funcional, por isso vale a pena uma avaliação médica, sobretudo se forem novos ou persistentes.
Quando falar primeiro com o seu médico
- Vomitar sangue ou algo com aspeto de borras de café
- Fezes negras
- Dificuldade ou dor ao engolir
- Perda de peso sem explicação ou anemia
- Vómitos persistentes
- Sintomas novos de má digestão depois dos 55 anos, ou que continuam a piorar
- Dor abdominal forte e súbita
O que devo comer se tiver gastrite?
Não há uma lista de alimentos que reverta a gastrite, e as dietas muito restritivas podem fazer mais mal do que bem. O que costuma ajudar é um ritmo suave e regular e prestar atenção às suas próprias reações:
- Refeições mais pequenas e regulares. As refeições grandes distendem o estômago e estimulam mais ácido. Três refeições moderadas, com um lanche pequeno se for preciso, costumam ser mais fáceis do que saltar refeições e depois comer muito.
- Comida macia, cozinhada e simples nas fases piores. Sopas, estufados, legumes cozidos, ovos, peixe, arroz, aveia, batata e banana madura são muitas vezes bem tolerados.
- Muitas plantas coloridas, conforme a tolerância. Legumes, fruta e ervas aromáticas dão polifenóis e fibra que apoiam a mucosa e o microbioma. Os rebentos de brócolos, ricos em sulforafano, reduziram os níveis de H. pylori e os sinais de gastrite num pequeno estudo em humanos, mas são um alimento de apoio e não substituem a abordagem que o seu médico indicar.3
- Proteína em cada refeição. A proteína dá os materiais de que a mucosa precisa para se reparar.
- Comer devagar e mastigar bem. Alivia o trabalho mecânico do estômago.
Que alimentos podem piorar a gastrite?
Os gatilhos são individuais e a evidência para proibições gerais é limitada. Os que as pessoas mais notam são:
- o álcool, que irrita diretamente a mucosa
- pratos muito picantes, sobretudo em jejum
- refeições grandes e muito gordas ao fim do dia
- o café em algumas pessoas, sobretudo em jejum
- bebidas muito ácidas, como refrigerantes e alguns sumos
Em vez de cortar tudo de uma vez, um diário alimentar e de sintomas durante algumas semanas pode mostrar quais destes contam para si, para manter o máximo de variedade possível.
Um estômago que arde e nunca acalma de vez?
Vamos olhar para os seus sintomas, as suas análises e a sua rotina para perceber o que pode estar a manter o estômago irritado – uma chamada gratuita, sem compromisso.
Marque a sua chamada gratuita de 15 minutos →A gastrite pode causar carências de nutrientes?
Sim, sobretudo quando é de longa data. O ácido do estômago e uma proteína chamada fator intrínseco são necessários para absorver a vitamina B12, e o ácido também ajuda a absorver o ferro. Por isso, a gastrite autoimune e a gastrite por H. pylori de longa duração podem estar associadas a B12 e ferro baixos.5 Cansaço, formigueiros, língua dorida ou uma ferritina baixa que não sobe são boas razões para pedir análises ao seu médico.
Como pode a terapia nutricional apoiar quem tem gastrite?
A terapia nutricional trabalha em conjunto com o acompanhamento médico e não em vez dele. Nas minhas sessões, o foco costuma estar em:
- confirmar que a causa foi procurada, incluindo o teste ao H. pylori e a revisão dos analgésicos, com o seu médico
- criar um ritmo de refeições e escolhas alimentares que mantenham o estômago confortável, sem restrições desnecessárias
- verificar efeitos em cadeia, como B12, ferro ou vitamina D baixos
- olhar para o stress, o sono e a velocidade a que come, que influenciam a digestão
- apoiar o ambiente intestinal depois de um eventual antibiótico (veja como apoiar o intestino depois dos antibióticos)
Algumas pessoas usam suplementos calmantes como a carnosina de zinco, o alcaçuz desglicirrizinado ou a goma de mástique. São opcionais e individualizados, e devem ser confirmados primeiro face à medicação e ao historial de cada pessoa.
Perguntas frequentes
Quanto tempo demora a gastrite a acalmar?
A gastrite aguda ligada a um gatilho claro costuma acalmar em dias a semanas depois de o gatilho ser retirado. A gastrite crónica depende da causa, por isso é importante identificá-la com o seu médico.
O leite faz bem à gastrite?
O leite pode aliviar por momentos, mas depois pode estimular mais ácido. Se tolera lácteos, quantidades moderadas às refeições não costumam ser problema; não é um remédio.
O stress causa gastrite?
O stress do dia a dia não causa diretamente gastrite, mas pode fazer os sintomas do estômago parecerem piores, através da ligação intestino-cérebro. O stress físico intenso, como uma doença grave, pode provocar alterações da mucosa.
Gastrite é o mesmo que úlcera?
Não. A gastrite é uma inflamação da mucosa e a úlcera é uma ferida mais profunda. Partilham algumas causas, como o H. pylori e os anti-inflamatórios, e a endoscopia distingue-as.
Posso beber café se tiver gastrite?
Há quem tolere um café pequeno depois de comer e quem se sinta pior. Observe a sua reação, evite-o em jejum e reduza-o nas fases piores.
Referências
- Sugano K, Tack J, Kuipers EJ, et al. Kyoto global consensus report on Helicobacter pylori gastritis. Gut. 2015. PubMed: PMID 26187502
- Malfertheiner P, Megraud F, Rokkas T, et al. Management of Helicobacter pylori infection: the Maastricht VI/Florence consensus report. Gut. 2022. PubMed: PMID 35944925
- Yanaka A, Fahey JW, Fukumoto A, et al. Dietary sulforaphane-rich broccoli sprouts reduce colonization and attenuate gastritis in Helicobacter pylori-infected mice and humans. Cancer Prev Res (Phila). 2009. PubMed: PMID 19349290
- Lanza FL, Chan FK, Quigley EM, et al. Guidelines for prevention of NSAID-related ulcer complications. Am J Gastroenterol. 2009. PubMed: PMID 19240698
- Lenti MV, Rugge M, Lahner E, et al. Autoimmune gastritis. Nat Rev Dis Primers. 2020. PubMed: PMID 32647173
- Stanghellini V, Chan FK, Hasler WL, et al. Gastroduodenal Disorders. Gastroenterology. 2016. PubMed: PMID 27147122
Este artigo tem fins educativos e não substitui o aconselhamento médico. A terapia nutricional não substitui o acompanhamento médico. Fale sempre com o seu médico perante sintomas novos ou persistentes e antes de alterar medicação ou suplementos.